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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 3

Janeiro 21, 2008

As únicas palavras que me vinham a mente eram “fugir”, “sumir”, “desaparecer”. A minha mente, já muito atordoada começava a fantasiar imagens, como a de meus pais me olhando com raiva, as pessoas me apontando na rua, rindo de mim, sussurando coisas ao meu respeito umas com a outras.

Eu corria pela rua. O mais rápido  que eu podia. Minha rapidez naquele instante determinaria muita coisa naquele dia. Precisava chegar em casa, antes que minha mãe ficasse sabendo de tudo, e voltasse a minha procura. Chegar em casa, em no máximo 10 minutos juntar tudo que eu precisava para me virar por uns tempo e correr para um terminal de ônibus.

Quando cheguei em casa. Me deparei com a porta aberta, escancarada. Pensei que era o fim da linha. Entrei nas pontas dos pés e logo quando começava a subir a escada meu irmão vinha descendo. Meu coração quase saiu pela boca ali mesmo. ” Nem uma palavra Juninho! Nem uma palavra! Você não me viu, ok?” Graças a Deus, eu tinha um irmão mais novo que me ouvia. Não sei o que eu fiz para merecer isso, mas ele realmente me obecedia. Passei por ele depressa e já entrei para meu quarto. Escutei ” Tá..”

Ele tinha 7 anos. Ele era branquinho como eu, tinhamos os mesmos olhos e o mesmo nariz. Quando andavamos lado a lado na rua, todos percebiam que só podiamos ser irmãos. Apesar de sermos bem parecidos fisicamente, o Junior…ou Rafinha, era bem diferente de mim. Ele certamente seria um homem nobre, justo, educado. Ele seria tudo que eu não sou. Como ele pode ficar assim, desse jeito, tendo eu como referência? Bom..quanta ignorância da minha parte pensar que ele poderia ter me escolhido como referência.  Eu não era. E pensar nisso me entristeceu.

Entrei no quarto louca e rápida como uma raposa faminta  à procura de uma lebre. Peguei uma mochila e comecei a colocar de tudo dentro, roupas, escova de dente, absorvente, minhas “jóias”, dinheiro, sandálias, boné e tudo mais que eu conseguisse enfiar lá dentro.

Foi quando passou pela minha cabeça a idéia mais degradante que eu poderia pensar. Caminhei pelo corredor, cheguei na porta do quarto de meus pais, abri com cuidado. A cama ainda desarrumada da manhã, segui direto para a pentiadeira onde estava o porta jóias de meu pai e de minha mãe. Abri, olhei tudo que tinha dentro e antes que eu pegasse alguma coisa, meu coração começou a parecer apartado e um  nó se formou na minha garganta. Peguei a coisa que eu achava mais valiosa, o relógio de meu pai. Um que ele só usava em ocasiões especiais. Eu sabia que era um relógio caríssimo, ouvi meu tio comentar com ele um dia. Logo que toquei o relógio, escutei baixinho.

” Não faça isso Juju…O papai vai ficar triste com você…” Era uma voz chorosa que dizia. Juninho na porta do quarto me olhava tristemente. Respirei fundo, caminhei até ele. ” Jú…Presta atenção. É só emprestado viu. Depois eu vou devolver pro papai. Eu prometo. Tá bem?” Ele fez que sim, como se não sabe se acredita ou não. Passei a mão carinhosamente pelos cabelos dele e continuei. ” Olha…Eu vou ter que fazer uma viagem. Eu não posso mais ficar aqui em casa. Mas você cuidar de tudo pra mim né? Vai cuidar da mamãe e do papai pra mim Jú?” Ele fez novamente que sim e me abraçou apertado. Respirei fundo mais uma vez para conter o choro e me desvencilhei daquele abraço, começando a descer as escadas. ” Preciso ir…agora você que toma conta deles hein Jú! Você me prometeu!” Já na porta, saindo de casa, olhei para trás e vi que ele chorava. “Eu vou voltar Jú, ainda não sei quando, mas pode me esperar viu”.

Sai, tapando a boca com a mão, evitando soluços de choro. Corri novamente, precisava achar um ponto de ônibus que fosse distante o suficiente de casa para que ninguém percebesse nada estranho. Vizinhos são fogo. Qualquer movimento estranho e já vão inventando história. É claro que no meu caso não seria invenção, mas como diz uma amiga. EMA EMA. Cada um com seus problemas e não queria ninguém fofocando sobre minha vida, aonde eu vou e o que eu faço.

Ônibus rumo ao terminal do Tietê. Acho que o pior já passou.

(continua)

3 comentários

  1. A linha que separa ”o que sou” de ”o que queria ser” ficou bem visível no texto, ”o que eu deveria ser” também esteve presente: talvez devesse ser menos sensível. A alma de poeta transpõe os fatos do texto. Parabéns.


  2. oiiiiiiiiiiii
    mto bom
    vou linkar teu blog no meu
    assim entrarei mais vezes
    t+


  3. O continua me deixa sem ar, a espera me deixa impaciente. A calma me falta. Quando é mesmo que continua?



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