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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 2

Janeiro 15, 2008

Quando me deparei com minha mãe olhando pra mim com olhos icógnitos, me assustei. “O que?”.Respondi fazendo manha e virando para o outro lado. “Tem alguma coisa para me contar?”. Essa é a mamãe. Pesca as coisas no ar. Por mais que eu tente disfarçar agora, para mim ela já pescou tudo na mesa de jantar, na noite passada. “Não”. Eu não falaria. Nunca. E percebi a preocupação nela quando percebeu que eu estava relutante em revelar algo. “Se não tem nada de errado, então por favor vá colocar seu uniforme e tomar café correndo que você já perdeu a primeira aula”. Disse levantando-se e saindo do quarto.

Merda. Pulei da cama, corri para o banheiro escovar os dentes, me enfrentei no espelho por alguns segundos…Eu estava horrível. Coloquei o uniforme do colégio e bati a porta do quarto atrás de mim. Quando desci as escadas o café estava posto, só me esperando. Bebi o chocolate de uma vez só e peguei o sanduiche para comer pelo caminho.

Ao  andar por duas esquinas depois da minha casa, me veio um pensamento chocante. Nem morta eu poderia aparecer no colégio. Na correria e sonolência da manhã não tinha reparado nisso, mas era claro que se eu aparecesse por lá, para mim seria o fim.

“E agora? O que eu faço? “Pensei e falei baixinho. Imaginei que em pouco tempo minha mãe passaria de carro por aquela rua onde eu estava à caminho do serviço e decidi sair dali. Precisava encontrar um lugar para passar a tarde antes de voltar para casa. A antiga praça parecia um bom lugar, ninguém mais aparecia por lá, devia estar tranquila. Quando estaba quase chegando na praça, meu celular tocou e meu coração quase saiu pela boca. Dei uma olhada no número e vi que era o da Nanda. Atendi. “Júlia! Júlia! Estão sabendo! A escola inteira! Não vem pra cá!” Meu sangue congelou. Era o fim. “Como assim?”Respondi perplexa. “Sua burra! Eu estou te falando! Eles descobriram! Alguém dedou! Alguém dedou! Preciso desligar! Tchau!”. Permaci imóvel por quase um minuto, apenas processando o que a Nanda acabara de me informar.

Sentei no banco velho da pracinha e a voz de minha amiga ecoava na minha cabeça me atrapalhando o pensamento. “Ai meu Deus….Aí meu Deus..” Era tudo que eu conseguia falar. “Não posso ir para o colégio…Não posso ir para casa, vão ligar para mamãe…vão ligar e contar tudo…vão me por pra fora de casa…Tô ferrada…”

Quando a gente é jovem se acha muito esperto, talvez até sejamos, mas fazemos cada burrada. E eu tinha acabado de cometer a maior burrada dos meus 14 anos de vida. Não cometi a burrada sozinha, tinha minhas cúmplices, que agora devem estar tão ou mais desperadas do que eu. Coitadas. Foram para o colégio e devem estar sendo massacradas. Eu deveria estar lá. Ou não. Ou Deus quis que eu não estivesse. Fez eu acordar mais tarde, para perder a hora e não ter que passar por isso. Aff! Besteira isso. Eu estou tão ferrada quanto elas, só que eles ainda não me pegaram. E quando pegar…

“Eu não posso ficar aqui. Eles vão me pegar!” Precisava pensar em algo, e rápido. Depois que meus pais ficarem sabendo vão me procurar em todos os cantos desse bairro. “Preciso fugir…Sumir daqui!”

(continua)