Ela me olhava com pena e me segurava levemente pelos braços enquanto eu chorava. “Vamos chamar seus pais no microfone?” Repetiu. “Não, não adianta chamar no microfone.” Ela não entendia muito, pois eu falava em meio a soluços cada vez mais sófregos. “Por que não minha flor? Onde estão seus pais? Se chamarmos ele no microfone eles virão até você…” ‘” Não virão não moça, eu não tenho mãe, e o meu pai não me quer mais…ele me deixou aqui com o bilhete para eu ir pra casa da minha irmã, por que ele não quer mais cuidar de mim, ele acha que eu sou só atrapalho a vida dele!” Eu abraço a moça sabendo que o que eu disse provavelmente irá deixá-la bem abalada, ainda mais se ela tiver filhos.
“Meu Deus!” Ela sussura enquanto retribui ao meu abraço. “Eu preciso chegar até a casa dela, eu não posso voltar pra casa, se eu voltar vou apanhar.” Enchugava minhas lágrimas enquanto continuava.”Minha irmã vai cuidar de mim, eu sei que vai. Ela casou e tem a casa dela, e vou vou morar lá com ela.Ela está me esperando. ” A moça me escutava com atenção e perturbação. “Fica calma! Fica calma…Eu vou te ajudar tá bom?” Você sabe onde sua irmã mora, tem o endereço?” Pronto. Daí para ela escrever um bilhete de autorização e me colocar dentro do ônibus foi uns vinte minutos, muito mais rápido do que eu imaginava. Eu a via da janela do ônibus que saia, acenando para mim, eu vi carinho e preocupação nos olhos dela, foi aí que pensei em minha mãe.
O ônibus ia para Taubaté, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Mas no caminho eu não pensava aonde minha jornada iria dar, eu só conseguia ficar olhando para o céu cheio de estrelas que via através da janela do ônibus, o que atrapalhava era que em certos momentos eu via meu reflexo e me dava uma vontade terrível de quebrar o vidro.
Dormi durante o resto da viagem, só acordei quando o motorista gritou que haviamos chegado. Sai do ônibus com a cara amaçada de dormir e a primeira coisa que vi foi uma lanchonete, ótimo pois eu estava faminta.
Comprei uma coxinha que devia ter ficado lá abandonada o dia todo, pois estava dura e fria, mas a fome era tanta que nem liguei. Comprei um refri e notei que as pessoas que estavam no terminal da cidade olhavam o Jornal que passava na t.v. “Atenção para mais um caso de criança desaparecida na região: Ana Helena da Silva, 12 anos foi vista pela última vez saindo da escola no bairro…” Quando ouvi logo imaginei que poderia ser eu ali, daqui à alguns dias. Meu Deus, eu não quero aparecer em nenhum telejornal como desaparecida.
Precisava sair daquela rodoviária, arranjar um lugar para passar a noite para me virar quando o dia chegar. Um hotel barato, uma pousada, qualquer coisas. Procurei um táxi. “Moço, estou tentando lembrar o nome do hotel que meu irmão está hospedado…tenho que ir pra lá. O nome está na ponta da língua. É um bem simplezinho, pequeno sabe, me ajuda?” O taxista faz cara de quem pensa. “Pequenininho só pode ser o Hotel São Judas…” Estalo do dedos. ”Isso mesmo! Pode me levar pra lá? Meu irmão Está me esperando.” Seguiamos para o hotel, que era realmente bem simples e pequeno, com uma placa de madeira com seu nome pintado, quase caindo . Quando entrei, não vi ninguém no balção do hotel, me apoiei sobre o balcão e então consegui ver uma senhora que fazia trico sentada em uma cadeira de balanço e cantarolava algo em italiano.
“Boa noite minha filha…” Disse ela simpática para mim. “Bom noite, eu queria um quarto.” Ela olhou em volta para ver se encontrava mais alguém. “Mas você está sozinha menina?” Pensa rápido. “Na verdade não, meu irmão acabou de me deixar aqui e foi deixar o carro naquela borracharia ali da esquina, ele falou que o carro está com uns barulhos estranhos e que ele ia tentar arrumar pra gente continuar a viagem.” Ela fez cara de quem estava entendendo, balançando a cabeça para cima e para baixo. “Entendi, ele vem dormir aqui também?” Ela perguntou com curiosidade. “Ah…se eu conheço meu irmão ele não sai daquela borracharia até conseguir arrumar o carro viu moça, por tanto eu não vou ficar esperando ele não.Vou dormir por que estou morrendo de sono.” Bocejei. Ela deu um grande sorriso e me entregou as chaves.”Vai sim minha filha, vai descansar, se seu irmão aparecer eu dou a chave do quarto ao lado pra ele tá bem?” Me entregando a chave. “Tá bem sim senhora, mas se eu fosse a senhora não ficaria esperando não viu…” Sai pelo corredor do hotel e fui procurar o quarto.
O quarto era pequeno, móveis de madeira escura, os travesseiros, lençóis e cobertores tinham um cheiro gostoso, diferente. Aquele cheiro me lembrava férias no sítio dos meus avós, a grama, o ar do sítio, as brincadeiras com os primos e primas, que saudade. Deitei e senti meu corpo pesado, minha cabeça doia muito e meus pés estavam latejando.
Estava cansada, mas não pudia dormir. Eu tinha que planejar o amanhã.


