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Uma estranha no ninho – Capitulo 1- Parte 5

Outubro 7, 2008

Ela me olhava com pena e me segurava levemente pelos braços enquanto eu chorava. “Vamos chamar seus pais no microfone?” Repetiu. “Não, não adianta chamar no microfone.” Ela não entendia muito, pois eu falava em meio a soluços cada vez mais sófregos. “Por que não minha flor? Onde estão seus pais? Se chamarmos ele no microfone eles virão até você…” ‘” Não virão não moça, eu não tenho mãe, e o meu pai não me quer mais…ele me deixou aqui com o bilhete para eu ir pra casa da minha irmã, por que ele não quer mais cuidar de mim, ele acha que eu sou só atrapalho a vida dele!” Eu abraço a moça sabendo que o que eu disse provavelmente irá deixá-la bem abalada, ainda mais se ela tiver filhos.

“Meu Deus!” Ela sussura enquanto retribui ao meu abraço. “Eu preciso chegar até a casa dela, eu não posso voltar pra casa, se eu voltar vou apanhar.” Enchugava minhas lágrimas enquanto continuava.”Minha irmã vai cuidar de mim, eu sei que vai. Ela casou e tem a casa dela, e vou vou morar lá com ela.Ela está me esperando. ” A moça me escutava com atenção e perturbação. “Fica calma! Fica calma…Eu vou te ajudar tá bom?” Você sabe onde sua irmã mora, tem o endereço?” Pronto. Daí para ela escrever um bilhete de autorização e me colocar dentro do ônibus foi uns vinte minutos, muito mais rápido do que eu imaginava. Eu a via da janela do ônibus que saia,  acenando para mim, eu vi carinho e preocupação nos olhos dela, foi aí que pensei em minha mãe.

O ônibus ia para Taubaté, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Mas no caminho eu não pensava aonde minha jornada iria dar, eu só conseguia ficar olhando para o céu cheio de estrelas que via através da janela do ônibus, o que atrapalhava era que em certos momentos eu via meu reflexo e me dava uma vontade terrível de quebrar o vidro.

Dormi durante o resto da viagem, só acordei quando o motorista gritou que haviamos chegado. Sai do ônibus com a cara amaçada de dormir e a primeira coisa que vi foi uma lanchonete, ótimo pois eu estava faminta.

Comprei uma coxinha que devia ter ficado lá abandonada o dia todo, pois estava dura e fria, mas a fome era tanta que nem liguei. Comprei um refri e notei que as pessoas que estavam no terminal da cidade olhavam o Jornal que passava na t.v. “Atenção para mais um caso de criança desaparecida na região: Ana Helena da Silva, 12 anos foi vista pela última vez saindo da escola no bairro…” Quando ouvi logo imaginei que poderia ser eu ali, daqui à alguns dias. Meu Deus, eu não quero aparecer em nenhum telejornal como desaparecida.

Precisava sair daquela rodoviária, arranjar um lugar para passar a noite para me virar quando o dia chegar. Um hotel barato, uma pousada, qualquer coisas. Procurei um táxi. “Moço, estou tentando lembrar o nome do hotel que meu irmão está hospedado…tenho que ir pra lá. O nome está na ponta da língua. É um bem simplezinho, pequeno sabe, me ajuda?” O taxista faz cara de quem pensa. “Pequenininho só pode ser o Hotel São Judas…” Estalo do dedos. ”Isso mesmo! Pode me levar pra lá? Meu irmão Está me esperando.” Seguiamos para o hotel, que era realmente bem simples e pequeno, com uma placa de madeira com seu nome pintado, quase caindo . Quando entrei, não vi ninguém no balção do hotel, me apoiei sobre o balcão e então consegui ver uma senhora  que fazia trico sentada em uma cadeira de balanço e cantarolava algo em italiano.

“Boa noite minha filha…” Disse ela simpática para mim. “Bom noite, eu queria um quarto.” Ela olhou em volta para ver se encontrava mais alguém. “Mas você está sozinha menina?” Pensa rápido. “Na verdade não, meu irmão acabou de me deixar aqui e foi deixar o carro naquela borracharia ali da esquina, ele falou que o carro está com uns barulhos estranhos e que ele ia tentar arrumar pra gente continuar a viagem.” Ela fez cara de quem estava entendendo, balançando a cabeça para cima e para baixo. “Entendi, ele vem dormir aqui também?” Ela perguntou com curiosidade. “Ah…se eu conheço meu irmão ele não sai daquela borracharia até conseguir arrumar o carro viu moça, por tanto eu não vou ficar esperando ele não.Vou dormir por que estou morrendo de sono.” Bocejei. Ela deu um grande sorriso e me entregou as chaves.”Vai sim minha filha, vai descansar, se seu irmão aparecer eu dou a chave do quarto ao lado pra ele tá bem?” Me entregando a chave. “Tá bem sim senhora, mas se eu fosse a senhora não ficaria esperando não viu…” Sai pelo corredor do hotel e fui procurar o quarto.

O quarto era pequeno, móveis de madeira escura, os travesseiros, lençóis e cobertores tinham um cheiro gostoso, diferente. Aquele cheiro me lembrava férias no sítio dos meus avós, a grama, o ar do sítio, as brincadeiras com os primos e primas, que saudade. Deitei e senti meu corpo pesado, minha cabeça doia muito e meus pés estavam latejando.

Estava cansada, mas não pudia dormir. Eu tinha que planejar o amanhã.

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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 4

Janeiro 22, 2008

Cheguei no terminal do Tietê. Quem já esteve por lá deve bem saber a loucura que é aquele lugar. Pessoas esbarrando umas nas outras. Um corre , corre para não perder o ônibus, o metrô. Gente esbarrando as malas nas suas pernas, gente que não se olha…gente te olhando. A voz da menina no microfone, chamando alguém no balcão de informações. Eu escutava que ela chamava por alguém, mas não conseguia entender o nome. Esperava que não fosse eu. E se fosse? O que eu faria? 

Não era eu que ela chamava. Mas as pessoas que passavam por mim me olhavam, como se soubessem o que eu tinha feito. Os olhos deles diziam “Ladra!”, “Mentirosa!” e o pior de tudo ” Assassina!”.

Mas eu não podia deixar que estes pensamentos me pertubassem. Eu estava no terminal do Tietê e tinha que me concentrar para não fazer besteira. Para quem nunca esteve no Terminal do Tietê, existem algumas informações que certamente irão lhes ser úteis caso venham a passar por lá. A primeira delas é a seguinte: finja que você sabe perfeitamente onde vai e o que quer fazer. Olhei totas as placas ao meu redor e logo comecei a andar “Sanitário Feminino”. Era ali, no banheiro feminino que entraria novamente em ação. Estava prestes ir para o segundo round do meu plano de fuga.

Esperei uma moça de aproximadamente 40 anos se aproximar da roleta e entrei logo após ela, pagando desinibida os 1 real cobrados pela moça do banheiro. Entrar foi fácil, a parte difícil estava por vir. Assim que a mulher, a tal talvez 40 anos entrou numa cabine do banheiro, entrei na do lado.

Quem já assistiu o filme argentino “As nove rainhas”, ou sua versão U.s.a “Os Vigaristas”, pode imaginar com que tipo de pessoa essa moça estará lidando nos próximos momentos da narração. Enfio a mãe sem nojo na privada e molho um pouco o rosto, perto dos olhos. E começo…a chorar. Um choro que começa devagar sensível, tímido..e aos poucos vai virando um choro sofrido, soluçado.

“Quem está chorando??!?” Escuto do outro lado. Continuo. Ela bate na porta. ” Quem está aí? Aconteceu algguma coisa?” Eu vou abrindo devagar. “O que houve minh flor?” Respondo entre soluços. “Eu perdi..” A moça me olha com pena e incompreensão. ” Perdeu o que querida?” Prossigo. “Perdi… a minha autorização pra viajar…Não sei onde está…não encontro em lugar nenhum” Mais choro.

Eu sei que uma atitude dessa deve parecer meio absurda, mas acredite, funciona. Aquilo era tão fácil para mim quanto mascar um chiclete. Pra simplificar a explicação, era um personagem. Eu acreditava naquilo que estava fazendo, como se realmente estivesse acontecendo…logo estava. E o choro se tornava real, e o soluço sófrego. Era simples fazer as coisas parecerem reais.

” E agora?? Vamos chamar seus pais no microfone!” Ela disse, pedindo minha mão.

(continua)

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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 3

Janeiro 21, 2008

As únicas palavras que me vinham a mente eram “fugir”, “sumir”, “desaparecer”. A minha mente, já muito atordoada começava a fantasiar imagens, como a de meus pais me olhando com raiva, as pessoas me apontando na rua, rindo de mim, sussurando coisas ao meu respeito umas com a outras.

Eu corria pela rua. O mais rápido  que eu podia. Minha rapidez naquele instante determinaria muita coisa naquele dia. Precisava chegar em casa, antes que minha mãe ficasse sabendo de tudo, e voltasse a minha procura. Chegar em casa, em no máximo 10 minutos juntar tudo que eu precisava para me virar por uns tempo e correr para um terminal de ônibus.

Quando cheguei em casa. Me deparei com a porta aberta, escancarada. Pensei que era o fim da linha. Entrei nas pontas dos pés e logo quando começava a subir a escada meu irmão vinha descendo. Meu coração quase saiu pela boca ali mesmo. ” Nem uma palavra Juninho! Nem uma palavra! Você não me viu, ok?” Graças a Deus, eu tinha um irmão mais novo que me ouvia. Não sei o que eu fiz para merecer isso, mas ele realmente me obecedia. Passei por ele depressa e já entrei para meu quarto. Escutei ” Tá..”

Ele tinha 7 anos. Ele era branquinho como eu, tinhamos os mesmos olhos e o mesmo nariz. Quando andavamos lado a lado na rua, todos percebiam que só podiamos ser irmãos. Apesar de sermos bem parecidos fisicamente, o Junior…ou Rafinha, era bem diferente de mim. Ele certamente seria um homem nobre, justo, educado. Ele seria tudo que eu não sou. Como ele pode ficar assim, desse jeito, tendo eu como referência? Bom..quanta ignorância da minha parte pensar que ele poderia ter me escolhido como referência.  Eu não era. E pensar nisso me entristeceu.

Entrei no quarto louca e rápida como uma raposa faminta  à procura de uma lebre. Peguei uma mochila e comecei a colocar de tudo dentro, roupas, escova de dente, absorvente, minhas “jóias”, dinheiro, sandálias, boné e tudo mais que eu conseguisse enfiar lá dentro.

Foi quando passou pela minha cabeça a idéia mais degradante que eu poderia pensar. Caminhei pelo corredor, cheguei na porta do quarto de meus pais, abri com cuidado. A cama ainda desarrumada da manhã, segui direto para a pentiadeira onde estava o porta jóias de meu pai e de minha mãe. Abri, olhei tudo que tinha dentro e antes que eu pegasse alguma coisa, meu coração começou a parecer apartado e um  nó se formou na minha garganta. Peguei a coisa que eu achava mais valiosa, o relógio de meu pai. Um que ele só usava em ocasiões especiais. Eu sabia que era um relógio caríssimo, ouvi meu tio comentar com ele um dia. Logo que toquei o relógio, escutei baixinho.

” Não faça isso Juju…O papai vai ficar triste com você…” Era uma voz chorosa que dizia. Juninho na porta do quarto me olhava tristemente. Respirei fundo, caminhei até ele. ” Jú…Presta atenção. É só emprestado viu. Depois eu vou devolver pro papai. Eu prometo. Tá bem?” Ele fez que sim, como se não sabe se acredita ou não. Passei a mão carinhosamente pelos cabelos dele e continuei. ” Olha…Eu vou ter que fazer uma viagem. Eu não posso mais ficar aqui em casa. Mas você cuidar de tudo pra mim né? Vai cuidar da mamãe e do papai pra mim Jú?” Ele fez novamente que sim e me abraçou apertado. Respirei fundo mais uma vez para conter o choro e me desvencilhei daquele abraço, começando a descer as escadas. ” Preciso ir…agora você que toma conta deles hein Jú! Você me prometeu!” Já na porta, saindo de casa, olhei para trás e vi que ele chorava. “Eu vou voltar Jú, ainda não sei quando, mas pode me esperar viu”.

Sai, tapando a boca com a mão, evitando soluços de choro. Corri novamente, precisava achar um ponto de ônibus que fosse distante o suficiente de casa para que ninguém percebesse nada estranho. Vizinhos são fogo. Qualquer movimento estranho e já vão inventando história. É claro que no meu caso não seria invenção, mas como diz uma amiga. EMA EMA. Cada um com seus problemas e não queria ninguém fofocando sobre minha vida, aonde eu vou e o que eu faço.

Ônibus rumo ao terminal do Tietê. Acho que o pior já passou.

(continua)

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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 2

Janeiro 15, 2008

Quando me deparei com minha mãe olhando pra mim com olhos icógnitos, me assustei. “O que?”.Respondi fazendo manha e virando para o outro lado. “Tem alguma coisa para me contar?”. Essa é a mamãe. Pesca as coisas no ar. Por mais que eu tente disfarçar agora, para mim ela já pescou tudo na mesa de jantar, na noite passada. “Não”. Eu não falaria. Nunca. E percebi a preocupação nela quando percebeu que eu estava relutante em revelar algo. “Se não tem nada de errado, então por favor vá colocar seu uniforme e tomar café correndo que você já perdeu a primeira aula”. Disse levantando-se e saindo do quarto.

Merda. Pulei da cama, corri para o banheiro escovar os dentes, me enfrentei no espelho por alguns segundos…Eu estava horrível. Coloquei o uniforme do colégio e bati a porta do quarto atrás de mim. Quando desci as escadas o café estava posto, só me esperando. Bebi o chocolate de uma vez só e peguei o sanduiche para comer pelo caminho.

Ao  andar por duas esquinas depois da minha casa, me veio um pensamento chocante. Nem morta eu poderia aparecer no colégio. Na correria e sonolência da manhã não tinha reparado nisso, mas era claro que se eu aparecesse por lá, para mim seria o fim.

“E agora? O que eu faço? “Pensei e falei baixinho. Imaginei que em pouco tempo minha mãe passaria de carro por aquela rua onde eu estava à caminho do serviço e decidi sair dali. Precisava encontrar um lugar para passar a tarde antes de voltar para casa. A antiga praça parecia um bom lugar, ninguém mais aparecia por lá, devia estar tranquila. Quando estaba quase chegando na praça, meu celular tocou e meu coração quase saiu pela boca. Dei uma olhada no número e vi que era o da Nanda. Atendi. “Júlia! Júlia! Estão sabendo! A escola inteira! Não vem pra cá!” Meu sangue congelou. Era o fim. “Como assim?”Respondi perplexa. “Sua burra! Eu estou te falando! Eles descobriram! Alguém dedou! Alguém dedou! Preciso desligar! Tchau!”. Permaci imóvel por quase um minuto, apenas processando o que a Nanda acabara de me informar.

Sentei no banco velho da pracinha e a voz de minha amiga ecoava na minha cabeça me atrapalhando o pensamento. “Ai meu Deus….Aí meu Deus..” Era tudo que eu conseguia falar. “Não posso ir para o colégio…Não posso ir para casa, vão ligar para mamãe…vão ligar e contar tudo…vão me por pra fora de casa…Tô ferrada…”

Quando a gente é jovem se acha muito esperto, talvez até sejamos, mas fazemos cada burrada. E eu tinha acabado de cometer a maior burrada dos meus 14 anos de vida. Não cometi a burrada sozinha, tinha minhas cúmplices, que agora devem estar tão ou mais desperadas do que eu. Coitadas. Foram para o colégio e devem estar sendo massacradas. Eu deveria estar lá. Ou não. Ou Deus quis que eu não estivesse. Fez eu acordar mais tarde, para perder a hora e não ter que passar por isso. Aff! Besteira isso. Eu estou tão ferrada quanto elas, só que eles ainda não me pegaram. E quando pegar…

“Eu não posso ficar aqui. Eles vão me pegar!” Precisava pensar em algo, e rápido. Depois que meus pais ficarem sabendo vão me procurar em todos os cantos desse bairro. “Preciso fugir…Sumir daqui!”

(continua) 

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Uma estranha no ninho – Capítulo 1 – Parte 1

Janeiro 14, 2008
O título do capítulo é uma representação fiel do meu sentimento nesse exato momento. As pessoas vivem falando quer jovem tem vida mansa, que não tem preocupações nem responsabilidades. Uma ova! Tenho certeza que poucos adultos tem tantos pensamentos fervilhando na cabeça como eu tenho agora.Quando cheguei em casa, tremendo e soluçando, tudo o que eu queria era entrar logo no meu quarto, passar a chave na porta e me jogar na cama. Um lugar só meu. Meu quarto era meu cumplice, meu amigo , meu ouvinte, meu refúgio  e meu abrigo. Tudo que eu queria era ficar só naquele momento. Apenas eu e aquela enorme tristeza que queria explodir meu peito. Chorava baixinho. Não queria que ninguém me escutasse. Se escutassem era pior, pois viriam bater na porta do meu quarto e me colocar na parede para que eu falasse o que é.Se tinha uma coisa que eu sei que seria impossível de fazer naquela hora, seria falar sobre o que tinha acontecido, ainda mais para meus pais. Estava lá em cima do criado mudo, uma foto de todos nós num hotel fazenda que visitamos há uns 4 anos atrás, deve ter sido a última vez que saimos todos juntos. Olhei para minha mãe e meu pai, tão felizes na foto. Me deu uma dor, um enjôo que corri para o banheiro antes que fosse tarde. Entrei de baixo do chuveiro e com  a esponja esfreguei e esfreguei meu corpo que chegou até a doer. Me olhei no espelho após o banho e me senti feia, me senti imunda.Batem na porta. Prendo o choro e a respiração. “Juju, vem comer!” Mantendo o controle. “Tô indo mãe!”

Na mesa de jantar apenas o barulho dos talheres, todos aparentavam cansaço e um pouco de tristeza.

Minha mãe começa a me olhar bem nos olhos. Mãe é foda. ” Que foi?” Ela diz olhando pra mim, como quem consegue ver através dos olhos. “O que o que?” Despistei. “Por que está com essa cara?”  Nada mãe. Eu hein..” Tentei manter a tranquilidade e continuar comendo, mas ela continuou me olhando.

Depois  do jantar voltei para o quarto, escovei meus dentes e me joguei novamente na cama. Não consegui dormir. Milhares de imagens passavam pela minha cabeça e quanto mais eu me esforçava pra não lembrar de nada, mais imagens horrível me vinham ‘a memória.

Eu sentia uma tristeza imensa, era tanta, que cheguei a ponto de abrir a gaveta do criado mudo e encarar a tesoura de ponta que estava dentro dela. Ao mesmo tempo que queria muito me livrar de vez por todas daquilo que estava sentindo, daquele nojo, eu sabia que nunca seria capaz de tirar minha própria vida. Apesar de tudo, eu queria viver. Não era corajosa o bastante para fazer uma coisa dessas. Ou quem sabe..talvez fosse corajosa sim…por escolher a vida.

Na manhã seguinte, assim que abri os olhos levei um susto tremendo com minha mãe sentada na cama, ao meu lado, apenas me observando.

(continua)